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Vitória no atletismo e na vida

27/04/2011

O atletismo está presente no cotidiano, pois é composto por atividades feitas no nosso dia a dia como correr, pular e arremessar. Mas quando é praticado por deficientes físicos, o que era fácil pode se tornar, no mínimo, complicado. É uma atividade que abrange um grande número de pessoas com deficiências distintas. Nesta modalidade, não há restrição. “Recebemos pessoas com qualquer tipo de deficiência. O nosso objetivo não é distingui-las, mas socializá-las”, diz o professor de Educação Física, da Universidade Federal de Pernambuco, Luís Carlos.

Por ser uma modalidade de fácil acesso, uma vez que não necessita de outros equipamentos para praticá-la, o atletismo tem sido uma ótima alternativa para superar a deficiência. Para deficientes visuais, as provas devem ser feitas com a ajuda de um guia, atleta que auxilia o deficiente na execução da atividade. As provas incluem corridas de velocidade (100, 200 e400 metros), corridas de meio-fundo (800 e1.500 metros), corridas de fundo (5.000 e10.000 metros), corridas de revezamento (4×100 e 4×400 metros), corridas de pedestrianismo (provas de rua e maratonas), saltos (triplo, distância e altura), arremessos e lançamentos (peso, dardo, disco e martelo), e provas combinadas (pentatlo – disco, peso, 100, 1.500 e distância).

Para participar de uma prova voltada para deficientes visuais, os atletas passam por um processo de elegibilidade. São considerados cegos os que necessitam de instrução em Braille e, portadores de visão reduzida, os que conseguem ler textos ampliados ou com ajuda de recursos óticos. Roberta de Souza Menezes, conhecida como Berta, teve retinopatia da prematuridade e já nasceu cega. Esta doença ataca crianças nascidas com peso inferior a1.500 gramasou com menos de 32 semanas de gestação. Como já nasceu com a deficiência, Berta considera o processo de aceitação e superação mais fácil. “Cresci cega e isso facilitou algumas coisas. Aprendi a me virar sozinha desde cedo. Nunca gostei de depender de outras pessoas. Isto me fez correr atrás dos meus sonhos”.

Com 28 anos, Berta é casada e trabalha como recepcionista de um escritório de contabilidade. “Eu estava satisfeita com a minha vida, mas tinha a sensação de que faltava algo. Foi quando uma amiga (deficiente física) me apresentou o atletismo. Pratico-o apenas como um exercício, mas não penso em largá-lo nunca mais”. Roberta diz que o esporte lhe proporcionou muitos benefícios. Além de se sentir mais disposta, afirma que o esporte a ajudou na superação de seus medos. “Meu sonho era poder correr, sentir o vento batendo no meu rosto, mas tinha muito medo de cair. Hoje eu pratico corrida e sou a pessoa mais feliz do mundo. Agora sou capaz de fazer qualquer coisa”.

Atleta deficiente visual utilizando a corda como adaptação

Com a ajuda do seu guia, Berta conseguiu conquistar o seu desejo. Presa a uma corda que fica entre a sua mão e a mão do profissional, ela corre em disparada e mostra toda a sua habilidade na prática do esporte. O guia tem um papel imprescincível para essas pessoas – a tarefa de conduzir o deficiente em todo o seu deslocamento. Trata-se de uma função que requer muito preparo físico e profissionalismo.

Ainda sobre os benefícios trazidos pelo atletismo, o professor alerta sobre as dificuldades encontradas no esporte e também sobre as lesões causadas pela forma incorreta da prática desta modalidade. “As maiores dificuldades encontradas em um deficiente visual são insegurança, falta de controle e equilíbrio. Quando o esporte é praticado de forma correta, é possível ver em poucos dias as melhorias. As pessoas se socializam mais rápido, desenvolvem sua parte física, tornam seus movimentos naturais, proporcionando uma melhor orientação, locomoção e mobilidade”. Luís complementa: “As lesões podem ser muito sérias, de uma simples queda a uma contusão mais grave. Além de machucar o atleta, elas podem causar traumas irreversíveis. A falta de aquecimento, o exagero nos exercícios ou até mesmo a irregularidade do solo podem provocar sérias lesões traumáticas”.  

Roseane realizando o aquecimento

Roseane Cordeiro, 35 anos, pratica o atletismo há dois anos, mas se machucou seriamente. Teve um estiramento no braço esquerdo. Ela ficou paraplégica devido a uma lesão medular após uma queda ainda quando criança. Alé disso ela é surda e muda, falando e escutando através da língua dos sinais. Hoje não tem problemas com seus saltos. Consegue desenvolvê-los de forma correta, mas sentiu dificuldades no começo. Por causa de uma comunicação deficiente, não conseguiu compreender as orientações dadas. Caiu e foi lesionada. Ainda está se recuperando, mas bem mais confiante.  Por meio do seu treinador, diz que demorou a se adaptar ao esporte, pois os professores não conseguiam entendê-la. Roseane precisou ter ajuda, inicialmente, do seu irmão, que também fala a língua dos sinais, para praticar o atletismo. Agora seu treinador já consegue compreender e passar as devidas recomendações na hora dos saltos.

O esporte é indicado para todas as idades e para qualquer condição física. Com crianças de cinco a sete anos, existem algumas restrições. Os movimentos são trabalhados através de jogos – corridas, saltos e arremessos, fazendo com que as crianças deficientes se acostumem com as atividades. Dependendo do crescimento e do rendimento da criança, inicia-se o trabalho de atletismo. O esporte já é levado mais a sério, mas na maioria das vezes é só na fase adulta que a modalidade pode ser vista profissionalmente.

Suely em mais uma prova de arrmesso de peso

Por não ter restrição em termos de deficiência, o atletismo também é praticado por deficientes físicos. A para-atleta Suely Guimarães é um exemplo desta modalidade. Campeã em várias paraolimpíadas, pratica arremesso de peso. Pernambucana, de São José do Belmonte, perdeu as duas pernas quando tinha apenas sete anos. Ela foi atropelada na calçada por um motorista bêbado. Em entrevista a um site, disse que todas as suas vitórias foram conquistas muito importantes. “Todas as medalhas são importantes para mostrar que o esporte paraolímpico está tendo grande visibilidade. Mas o melhor de tudo é a minha superação como pessoa”, diz a para-atleta.

Suely Guimarães no Engenhão - Parapan - Americanos

De um modo geral, o esporte não pode ser limitado apenas ao ser humano fisicamente normal. Ele é bem-vindo para qualquer pessoa, independente de qualquer condição. Mas a diferença está em toda parte: nas fases da lua, nas marés, nas estações do ano, no crescimento das plantas e também do homem. Os movimentos não são iguais para todos. Cada um tem seu tempo e sua forma de realizá-los. Eles são mutáveis e individuais.

 Muito mais que um atleta

O guia Lucas Prado com atleta

O guia é um profissional que trabalha juntamente com o atleta deficiente visual. Esta função não é para qualquer pessoa. Além de atleta, ele é também uma pessoa de confiança (“os olhos do atleta cego”). O desempenho final do esportista sempre depende da performance do guia. Reginaldo Lima, de 35 anos, é guia desde 2006. Sempre foi atleta e corria por hobby. Então foi convidado por um professor de Educação Física para exercer esta função, devido ao seu preparo físico. “Para mim não mudou muita coisa. Continuo correndo como antes, só que agora sou responsável por outra pessoa. Mas a pessoa cega precisa ter confiança em seu guia. E isso eu conquistei. Precisei conhecer as regras do atletismo para me aperfeiçoar. É bom se sentir útil para alguém”.  

Além de confiança, o profissional deve passar calma e segurança. Seu trabalho começa desde o aquecimento e se estende até as competições. Nelas, ele deve usar um colete da cor laranja, para facilitar a identificação. O guia tem que ser presente no dia a dia do atleta. A convivência é imprescindível para se obter o melhor resultado.                                                                                   

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