Skip to content

Sem razão para ter vergonha

27/04/2011
 

 

Ele atravessava o semáforo quando o avistei. Tranquilo e aparentemente bem resolvido com a sua deficiência, o que me chamou atenção foi o objeto que carregava em seu colo: uma bola de basquete. O sinal abriu e eu resolvi estacionar o carro e ir atrás daquele homem. Chamei-o de longe, identificando-me, e logo em seguida estávamos conversando. Simpático, ele começou a falar da sua vida sem nenhum problema.

Kiko, como preferiu ser identificado, contou-me que aos nove meses de idade adquiriu poliomielite. Teve a perna esquerda paralisada e com isso precisou usar muletas para se locomover. Após uma queda durante o banho, teve o fêmur quebrado e precisou usar cadeira de rodas. Aos 15 anos, Kiko foi convidado por um amigo, também cadeirante, para jogar basquete. Com preconceito, por achar que o esporte era apenas praticado por meninas, começou a fazer natação. Por problemas de adaptação, o menino deixou o esporte aquático e foi praticar basquete.

Desse dia em diante, sua vida só fez melhorar. Como se destacou durante os treinos de basquete que praticava no Sesi de Paratibe, Kiko foi chamado para fazer parte da Associação Desportiva de Deficientes Físicos de Pernambuco e foi crescendo a cada dia. Hoje, com 30 anos, ele conta que o basquete trouxe vários benefícios para a sua vida. “Eu mesmo tinha discriminação da minha deficiência. Tinha vergonha mesmo. E o basquete me fez superar vários traumas e medos que eu trazia desde criança”.

Atletas disputam pela bola

Além de melhorar sua autoestima, o esporte paraolímpico proporciona enriquecimento na parte física do atleta. O livro “O esporte na paraplegia e tetraplegia” enfatiza que o esporte adaptado deve ser considerado uma alternativa lúdica e mais prazerosa, sendo parte do processo de reabilitação das pessoas portadoras de deficiências físicas.

A deficiência sempre foi motivo de impedimento na vida de Kiko. Privações, limitações e preconceitos sempre estiveram ao seu lado. Mesmo sem se deixar levar por essas dificuldades, o atleta fala dos transtornos de ser um cadeirante num lugar onde a acessibilidade não existe para todos. “Já caí várias vezes por não ter rampas nas calçadas. A gente tem que se arriscar andando em meio aos carros, porque as calçadas são todas esburacadas. Passo horas esperando um ônibus adaptado para me locomover. As pessoas não pensam no deficiente”.

Acompanhei Kiko durante dois dias. Passávamos horas conversando em sua casa. Várias adaptações foram feitas em sua residência para que as atividades do dia a dia fossem realizadas sem nenhum problema. Atualmente mora com sua esposa e uma filha de dois anos e três meses. Tem vida normal e não pensa em largar o esporte por nada. “O basquete só me trouxe coisa boa. Tudo o que tenho ganhei praticando o basquete. Já viajei para vários lugares e conheci muitas pessoas. Não sei o que seria de mim sem este esporte”, diz emocionado.

O basquete em cadeira de rodas é um esporte que garante agilidade, equilíbrio, força muscular e coordenação motora para quem o pratica, além de inclusão e inserção na sociedade. Infelizmente a prática de um esporte não é acessível para todos os deficientes. Por necessitar de adaptações, o custo de praticar um esporte adaptado pode ser muito alto. E pessoas como Kiko, sem condições financeiras, precisam se esforçar muito para seguir em frente.  

Equipe de cadeirantes de Teresina

Como hoje ele faz parte de uma associação, conseguir patrocínio (e/ou pedir ao governo) fica mais fácil. As cadeiras de rodas utilizadas pelos atletas foram doadas, mas qualquer dano que sofram fica por conta do atleta. Diante desta dificuldade, Kiko resolveu voltar a estudar. Fez vários cursos, inclusive de soldador, no Senai, para se profissionalizar e ele mesmo confeccionar as cadeiras usadas por ele e seus companheiros. Ele diz: “Senti uma necessidade de ajudar de alguma forma. Aprendi e agora não dependemos das migalhas do governo”. As cadeiras fabricadas por ele ainda são utilizadas apenas para os treinos. Em jogos oficiais, os instrumentos devem seguir um padrão para não desfavorecer os outros jogadores.

Agora, além de jogador, Kiko também se tornou mecânico de cadeiras. Viaja pelo Brasil inteiro realizando as manutenções dos equipamentos. Entre os dias 25 e 5 de maio, ele estará em Mogi das Cruzes,em São Paulo, e no período de20 a27 de maio ele viaja para Manchester, na Inglaterra, para pôr em prática a sua nova especialidade.

Necessidade ainda distante

O basquete em cadeiras de rodas foi criado nos Estados Unidos por ex-combatentes da Segunda Guerra. A modalidade foi trazida para o Brasil através de Sérgio Del Grande. Depois de um acidente em uma partida de futebol, ele ficou paraplégico. Então viajou para os EUA em busca de um tratamento de reabilitação e criou o Clube dos Paraplégicosem São Paulo.

Vários autores destacam a importância do basquete no processo de recuperação de deficientes. A prática de atividades físicas como o basquete proporciona, no aspecto psicológico, benefícios contra sentimentos como agressividade, medo e frustrações. Observou-se também que a prática desta modalidade oportuniza benefícios físicos para os seus praticantes, tais como ganho de independência nas atividades diárias e melhora da aptidão física, da autoconfiança e da autoestima (REZER; COSTA; BOHES, 2005).

Cadeira adaptada

O que encarece a prática do esporte é a cadeira de rodas feita especialmente para o basquete. O instrumento é todo adaptado para evitar qualquer acidente e é feito, na maioria das vezes, sob medida para o jogador. Responsável pelas vendas de cadeiras de rodas desportivas em uma loja de São Paulo, Romero Fernandes fala da importância do equipamento: “A cadeira tem que ser a melhor possível. O deficiente precisa de segurança para praticar o basquete e a cadeira de rodas é o seu instrumento de locomoção. As cadeiras são conhecidas como desportivas e possuem características que as tornam mais leves e aerodinâmicas. A maioria delas já possui uma roda anterior, posicionada atrás do assento e rebaixada como medida de segurança, a fim de evitar quedas. Elas não possuem travões e a “viragem” das rodas para 360º pode ser feita apenas com uma mão”.

Esportes como o basquetebol em cadeiras de rodas tornam-se uma forma de inclusão e inserção não somente social, mas de motivação e valorização do eu como uma das coisas mais procuradas e importantes nesse processo. A possibilidade de maior autonomia e até independência, através da prática de atividades físicas, permite ao indivíduo ser reinserido na sociedade, minimizando as diferenças. Desta forma, o portador de necessidades especiais deixa de ser tratado como inferior e sem valor.

O custo de uma cadeira de rodas desportiva varia de R$2.000 aR$ 4.500, dependendo da necessidade do usuário. Como as cadeiras são fabricadas sob medida, os componentes devem ser descritos em um formulário, no ato da compra, com todas as informações necessárias. “É imprescindível que o atleta descreva como quer personalizar sua cadeira. Isto faz com que a deficiência seja minimizada”, diz o vendedor.

As cadeiras fabricadas nas lojas de ortopedia de São Paulo são construídas com tubos de alumínio aeronáutico e bitolas combinadas, buscando otimizar sua resistência e leveza. A estrutura é personalizada de acordo com as necessidades do jogador. Existe um eixo transversal de liga especial, com buchas receptoras nas extremidades com cambagem opcional, que é fixado na estrutura da cadeira através de mancais de alumínio que permitem a regulagem do centro de gravidade e um ajuste perfeito. As rodas traseiras são montadas com aro de alumínio específico para competição (aro opcional 24, 25 ou 26), pneus semitubulares montados com câmara de alta pressão, cubos de alumínio montados com rolamentos de precisão, eixo removível tipo quick release de alta resistência e protetor de raios. Já as rodas dianteiras em poliuretano são montadas com rolamentos de precisão, garfo de alumínio reduzido e eixo vertical de aço fixado em cubos dianteiros rolamentados. Os pedais são ajustáveis, havendo um protetor de roupas incorporado na estrutura da cadeira, que possui ainda estofamento em náilon impermeabilizado de alta resistência, com faixas de velcro para ajustes, almofada de alta densidade e acabamento de pintura eletrostática. O prazo de entrega pode chegar até 60 dias.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: