Skip to content

Superação através da natação

03/05/2011

 

Em 1960 a natação entrou na primeira paraolimpíada, realizada em Roma, e desde então vem mudando a vida de muita gente. Na época, não se imaginava que ela poderia proporcionar tantos benefícios, mas hoje o esporte já tem uma grande repercussão nos seus resultados. Além de todos os melhoramentos físicos, esta modalidade auxilia também nos aspectos psíquicos e terapêuticos.

Foi assim com o recordista mundial Luís Silva, de 29 anos. Deficiente desde que nasceu, o atleta procura não deixar que a deficiência seja um impedimento em sua vida. “Nunca deixei de fazer nada que eu quisesse. Sou deficiente, mas não sou diferente”. Satisfeito, hoje ele não tem nenhum problema com a sua aparência física, pelo contrário, é grato por ela ter lhe proporcionado tantas coisas boas. “Fui criado e educado sem qualquer restrição. Lá em casa, eu não era o coitadinho. Era tratado como meus irmãos, sem nenhuma diferença. E isso foi muito bom”.

Luís, esperando resultado oficial

Com Luís, nem tudo foi muito fácil. Ele começou a nadar para passar o tempo aos 13 anos. “Eu largava do colégio e ficava esperando minha irmã terminar as aulas de balé. Sempre fui um rato de piscina e nunca tive problemas com a água, mas a dificuldade foi convencer o professor a me treinar”. Sem saber lidar com a deficiência, o professor do Colégio Salesiano teve receio por não saber o que fazer. Então eu disse a ele: “Me coloca dentro da água e a gente vê o que faz”.

Quem pratica algum esporte está sempre em busca de melhoria em algum aspecto. E a natação paraolímpica, de acordo com os próprios atletas e professores, oferece todos os benefícios que um deficiente precisa. O ex-treinador Manoel Souza diz que a natação é uma atividade completa, pois todos os seus movimentos contribuem para áreas diferentes. Por ser um esporte aquático, a natação paraolímpica facilita a locomoção, auxilia no equilíbrio estático e dinâmico, e proporciona ao atleta a sensação de liberdade.

Aquecimento antes de entrar na água

Luís Silva tem amputação congênita até o tornozelo na perna esquerda, até o joelho na perna direita e abaixo do cotovelo no braço esquerdo. Mesmo assim ele foi longe. Ganhou várias medalhas em campeonatos estaduais e nacionais, bateu quatro recordes mundiais e se diz “fominha” de medalhas. “Por ser deficiente, eu sempre quis provar que era capaz. Sempre quis ganhar tudo”. O atleta é do Rio Grande do Sul, mas veio morar no Recife desde 1994. Assistindo à televisão, ele viu Ivanildo Vasconcelos se preparando para os Jogos de Atlanta e decidiu levar a sério a natação, para competir na paraolimpíada de Sydney, realizada em 2000. Luís foi e ganhou três medalhas de prata.

Participam da natação atletas com deficiência física e visual, divididos em categorias masculinas e femininas por tipo de deficiência. As regras gerais não diferem muito da natação convencional. Lógico que, na natação paraolímpica, existem adaptações (nas saídas, nas viradas e nas chegadas, há orientação para os deficientes visuais) que devem ser respeitadas para que os participantes consigam realizar a atividade. A distinção para cada competição se dá com a classificação de cada deficiência – S1 / SB1 / SM1 a S10 / SB9 / SM10 (deficiente físico-motor), S11 / SB11 / SM11 a S13 / SB13 / SM13 (deficiente visual), S14 / SB14 / SM14 (deficiente mental).

A vergonha em usar shorts ou bermudas foi superada

Conviver com a deficiência não é tarefa fácil. O preconceito e a discriminação ainda existem. Mas é preciso encará-la e levar a vida adiante. “A gente tem que aceitar primeiro a deficiência e ir atrás do que quer. Não ter vergonha”, diz Luís.  Quando criança, o atleta passou por várias dificuldades. Sempre usou prótese, mas, em alguns momentos, precisava retirá-la e isso o incomodava muito. “Eu tinha vergonha de usar shorts. Não gostava que os outros vissem que eu não tinha perna. Nas aulas de Educação Física, os alunos me rejeitavam. Com o tempo, fui acreditando mais em mim e não deixei de fazer as coisas que mais gostava. Passei a ser admirado pela minha persistência”.

A deficiência física pode ser trabalhada de diversas formas. E a natação é uma atividade que colabora para a melhoria de vida de quem a pratica. Um dos esportes mais apropriados para pessoas com algum tipo de deficiência física é a natação. Devido às facilidades e aos benefícios proporcionados pela execução do movimento do corpo dentro da água, a natação desenvolve o condicionamento aeróbio e a coordenação motora, e “reduz” a fadiga muscular. Para indivíduos com deficiência física, o exercício na água significa, muitas vezes, um momento de liberdade. Este movimento proporciona a possibilidade de vivenciar suas limitações e experimentar suas potencialidades. A partir do momento em que o deficiente físico descobre suas potencialidades na água, o seu prazer aumenta, a sua autoestima cresce e a sua autoconfiança floresce. A natação tem valores sociais, terapêuticos e recreativos, além de contribuir bastante para o processo de reabilitação, diminuindo o grau de complicações e de fraqueza corporal (LÉPORE, 1999).

Luís Silva tem vida normal como qualquer pessoa. Estudante de Educação Física da Faculdade Universo, o atleta diz não se importar com os olhares da sociedade. “Eu gosto da curiosidade dos outros, não do preconceito. É normal pessoas virem me perguntar o que aconteceu comigo ou até mesmo ficarem olhando. Eu levo isso numa boa. O que eu não aceito é o pré-julgamento”. Em sua vida de nadador paraolímpico, Luís conquistou várias medalhas, mas hoje já não compete como antes. Em toda competição, há uma reavaliação para analisar o nível que o atleta se enquadra. E foi depois dessa “vistoria” que ele foi rebaixado em sua categoria. Começou a competir com pessoas mais preparadas. Já não ganhava como antes e foi perdendo o entusiasmo. Hoje pratica a natação para se restabelecer de uma lesão sofrida por altos níveis de treinos. Participa de alguns campeonatos, mas não tem o mesmo gás de antes. “Limites todo mundo tem e eu sei quais são os meus”.

Luís em mais uma vitória no Parapan Rio

Seus principais títulos foram Ouro (50m borboleta; 50m, 100m e 200m livre; 4x50m livre e 4x100m livre; 4x50m medley), no Parapan do México, em 1999, tendo o atleta batido quatro recordes mundiais – 50m e 100m livre, 50m borboleta e 4x50m medley; Prata (50m borboleta; 4x50m livre; 4x50m medley) e Bronze (4x100m livre), nos jogos de Sydney, em 2000. O atleta também foi Ouro nos 50m borboleta, 4x50m livre e 4x50m medley, no Campeonato Mundial de Mar del Plata, na Argentina, em 2002; e nos 50m borboleta, 4x50m livre e 4x50m medley, além de Prata nos 50m livre e 100m livre, no Parapan da Argentina, em 2003. Em Atenas, conquistou o Ouro no revezamento 4x50m medley e a Prata no 4x50m livre, em 2004. E no Mundial de Natação, realizado em 2006, ele foi Ouro no revezamento 4X50m medley, batendo o recorde mundial (2m32s36). No Circuito Loterias Caixa 2005, ganhou quatro medalhas de ouro, 13 de prata e duas de bronze. No mesmo circuito, no ano seguinte, foram três medalhas de ouro e oito de prata. No Parapan Rio alcançou Prata nos 50m livre e 100m livre, além de Ouro nos 4x50m medley.

Luis, junto de outros atletas nas Paraolimpíadas de Atenas.

Vários estilos

Na natação, tanto a regular quanto a adaptada, existem quatro estilos que são praticados pelos atletas: crawl, costas, peito e borboleta. O crawl ou nado livre, como também é conhecido, é considerado o mais fácil e o preferido de alguns atletas. Em uma entrevista, o nadador paraolímpico Clodoaldo Silva revela suas preferências: “Treino e disputo provas nos quatro estilos, mas como todo mundo, tenho preferências. O nado costas é o que menos gosto, a minha deficiência não ajuda neste estilo. O nado peito, eu qualifico como nado de preguiçoso, me perdoem os nossos grandes especialistas.

Quando eu estou muito cansado dos outros estilos, começo a nadar peito. Na realidade, não faço força nenhuma. Apenas, flutuo, sem fazer muita força nos braços para me deslocar. O nado borboleta, dos quatro estilos este é o que acho mais bonito, pena que cansa muito e odeio fazer força. Sou apaixonado pelo craw. Não que ache bonito, elegante ou chic, mas por ser o mais rápido. Quando estamos no final do treinamento e meu técnico fala, tem mil metros para fazer da maneira que quiser, eu sempre falo, vou fazer de craw que acabo mais rápido”.

O nado crawl é o nado mais rápido. O nadador movimenta-se com o abdome voltado para a água (decúbito ventral), utilizando propulsão de perna em movimentos alternados assim como os dos braços. Quando um dos braços está fora da água, o nadador pode virar a cabeça para respirar desse lado. Porém muitas adaptações são feitas para o nadador paraolímpico, dependendo da sua capacidade de realizar alguns movimentos. Mesmo com estas adaptações, o nado não deverá ser descaracterizado. Durante a competição, além da arbitragem oficial da competição, classificadores funcionais deverão estar presentes para observar detalhes do nado. No nado de costas o nadador permanece todo o percurso com o abdome voltado para fora da água (decúbito dorsal). Também utiliza propulsão de pernas e o movimento alternado dos braços semelhante ao nado crawl. Porém, as classes baixas (S1, S2 e S3), que são os deficientes físicos motores, poderão nadar com braços simultâneos, ou utilizando a ondulação da cabeça e tronco. Normalmente classes baixas nadam costas e crawl com a mesma técnica.

O nado de peito é o estilo mais lento da natação. As pernas são trazidas para junto do corpo com os joelhos dobrados e abertos (posição da rã), enquanto os braços abrem-se e recolhem-se à altura do peito, projetando o corpo para frente. Na seqüência, as pernas são empurradas dando propulsão ao nadador, e os braços esticam na frente para a repetição do movimento. A inspiração de ar é feita no final da puxada do braço, quando se ergue a cabeça fora da água. Porém, como em todos os estilos, são feitas adaptações. Normalmente o nadador no estilo de peito é uma categoria inferior à de crawl, com mais bloqueios. O nado borboleta é oriundo do nado de peito; os braços passam a ser lançados à frente do corpo por sobre a água e o movimento de perna é simultâneo. Também chamado de golfinho, pela semelhança de movimentos executados pelo animal. A respiração, assim como no nado de peito, é frontal quando o nadador ergue a cabeça após puxar os braços, também podendo ser realizada lateralmente. Não é muito comum que as classes baixas nadem neste estilo que requer muita exigência física. Só a partir da classe S8 é oferecido o 100m Borboleta; antes disso, somente 50m Borboleta.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: