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Bocha: uma aliada na recuperação

04/05/2011

 

Grande aliada na recuperação de deficientes físicos, a bocha é um esporte ainda em ascensão, principalmente na categoria desportiva, que já apresenta significativos benefícios para atletas com deficiência física. Antes era praticado apenas por pessoas com paralisia cerebral ou indivíduos que tinham os quatro membros comprometidos e faziam uso de cadeiras de rodas. Hoje a modalidade é indicada para pessoas portadoras de outras deficiências, desde que similares à paralisia ou tetraplegia.

É o caso do para-atleta Bruno Henrique Guimarães, de 23 anos. Bruno teve paralisia cerebral devido à falta de oxigenação no cérebro durante o parto. Essa condição teve como consequência o comprometimento dos movimentos das pernas, afetando a sua coordenação motora e a fonação. Mesmo com a deficiência, Bruno teve uma infância normal, mas com muitos desafios. Por causa da paralisia, teve o seu desenvolvimento retardado. Sua educação também sofreu decorrências da lesão, já que as dificuldades de aprendizagem eram constantes. Porém tudo foi superado.

A bocha é uma atividade física como qualquer outra, com benefícios e dificuldades. O esporte não tem nenhuma restrição à idade e é jogado de forma recreativa, como competição e também para fins de reabilitação. Ainda existe um preconceito em torno da modalidade: ser considerada um esporte para idosos. Mesmo assim, a bocha tornou-se um apoio contra os efeitos da paralisia.

Bruno sempre foi inteligente e se destacava em tudo que fazia. Entretanto, sentia o peso de ser deficiente físico. Com grandes problemas no controle dos seus movimentos, o para-atleta resolveu praticar a bocha. Sem exigir muito esforço, o esporte foi fazendo parte da sua vida. Estimulando a sua capacidade visomotora e instigando a necessidade de pensar e agir rápido, o jogo contribuiu em seu processo de reabilitação e inserção na sociedade.

São muitos os benefícios nos aspectos físicos e sociais que a atividade física proporciona. Pode-se afirmar que o principal deles está relacionado com o restabelecimento da autoestima do indivíduo e, consequentemente, com a diminuição da depressão provocada pelo impacto da nova realidade que o espera, nos casos de lesão adquirida, facilitando a sua reintegração à sociedade. De acordo com Aline Barros, estudante do oitavo período do curso de Fisioterapia da UFPE, a bocha tem colaborado muito para a vida das pessoas. “A modalidade tem contribuído bastante para o desenvolvimento das habilidades e da inteligência. Os praticantes passaram a ter decisões e opiniões próprias, sem depender o tempo todo de alguém”. A estudante ainda afirma que isso acontece devido a confiança que eles adquirem depois que entram no esporte.

José Carlos, de 41 anos, e Ivanildo, de 36, também são praticantes da bocha. José Carlos ficou paralítico por causa de uma doença congênita e Ivanildo sofreu paralisia. Eles iniciaram a prática do esporte há pouco mais de quatro meses e já sentem a diferença em seus movimentos e na vida social. “Sempre fui uma pessoa muito fechada, não era de muita conversa. Tinha vergonha de andar de cadeira de rodas. Hoje praticar a bocha me fez perceber que posso ser uma pessoa normal. Fiz amigos e até arranjei uma namorada”, diz Ivanildo.

José Carlos e Ivanildo em mais um dia de treino

Satisfação com os bons resultados

Para o professor de Educação Física Maurílio Tenório de Oliveira, não há melhor alternativa para uma reabilitação do que o esporte. “Todo deficiente passa pela fase de rebeldia (onde não aceita a deficiência), fase de adaptação (onde a pessoa procura métodos para a superação) e fase de reconhecimento (onde já obtém resultados e melhorias). Eles estão se dando muito bem”, comenta o professor que auxilia os praticantes da bocha há um ano.

As dificuldades, também encontradas em outros esportes, são falta de apoio e informação sobre o esporte e insuficiência de recursos financeiros. Para praticar a bocha, é necessário um kit contendo 13 bolas (seis azuis, seis vermelhas e uma branca), que custa em média R$ 400,00. Quando os praticantes são patrocinados pela Associação Nacional de Desporto para Deficientes (Ande), o kit não tem custo. Do contrário, eles são obrigados a desembolsar esta quantia para continuarem no processo de reabilitação.  

“Não é preciso muito. Acredito que através de um tratamento de forma igualitária, no sentido de todos adquirirem uma vida profissional e social independente, compreendendo seus direitos e deveres como cidadãos, e estimulando a prática esportiva, podemos colaborar para uma melhoria de vida dos deficientes. É isso que nós da Universidade Federal de Pernambuco buscamos para os nossos atletas”, desabafa o professor.

Conhecendo um pouco mais a bocha

A bocha é uma prática esportiva que pode ser praticada individualmente, em dupla ouem equipe. Acompetição é feita com seis bolas vermelhas, seis azuis e uma branca. A quadra deve ter uma marcação apropriada e precisa ser plana e lisa, de madeira, cimento ou material sintético. O objetivo principal da modalidade é encostar o maior número de bolas na bola-alvo (branca). A pontuação é dada para as bolas mais próximas da bola branca, que são comparadas com as do jogador adversário. Cada bola equivale a um ponto. Caso uma bola vermelha e uma bola azul estejam na mesma distância da bola branca, ao final da parcial, será creditado um ponto para cada jogador.

Medidas oficiais da quadra para a prática do esporte

Caso duas bolas azuis e uma vermelha estejam na mesma distância da bola branca, serão creditados dois pontos para a azul e um ponto para a vermelha. Em caso de dúvida na medição de distância da bola, o árbitro poderá autorizar o jogador (individual) e o capitão (duplas e equipes) para entrarem no local da jogada, a fim de acompanhar a medição. Caso haja empate em número de pontos, ao término das parciais, será jogada uma parcial de desempate, chamada de tie break. E declarado vencedor o lado que tiver o maior número de pontos em sua somatória, ao final de todas as parciais, incluindo o tie break caso ocorra.

Rampas e calhas utilizadas para adaptações

Sem muita diferença no esporte convencional, precisa de adaptações, se necessário, para o atleta conseguir atingir o objetivo. Essas adaptações podem ser feitas com calhas ou rampas. Para facilitar os deficientes, as bolas são confeccionadas com fibra sintética expandida e possuem superfície externa de couro. Seu tamanho é menor que a bocha convencional e pesa 280 gramas. A calha e a rampa são utilizadas quando o jogador não tem condições de jogar a bola com uma boa propulsão.

Mesmo usando essas adaptações, o atleta deve ter um contato físico direto com a bola, antes de fazer um lançamento. Esse contato também pode ser feito através de um ponteiro ou agulha presa na cabeça por uma faixa ou capacete. “Temos atletas que ainda não têm o controle dos movimentos dos membros superiores. São eles que fazem uso das agulhas e dos ponteiros”, diz o treinador Fernando Corrêa. Para sinalizar o início de cada lançamento, o árbitro mostra um indicador, que parece uma raquete de tênis, com cada lado de uma cor.  

Atletas utilizando as adaptações

 

 NOMENCLATURA DO JOGO

  • Jack, bola-mestra ou bola-alvo (bola branca)
  • Cancha (quadra de superfície plana e lisa onde ocorrem os jogos)
  • Box (local onde ficam as cadeiras de rodas dos jogadores)
  • Dispositivos auxiliares (rampas ou calhas para o jogador executar a jogada)
  • Calheiro (pessoa destinada a segurar e executar o movimento – com a calha ou a rampa – para o aluno mais comprometido)
  • Kit (conjunto de bolas de bocha)
  • Elegibilidade (condição motora para que o atleta possa jogar a modalidade, estando dentro do perfil da classificação funcional exigida pelo manual de classificação)
  • Bola morta (bola arremessada para fora das linhas do campo ou retirada pelo árbitro depois de uma violação)
  • Dispositivo de medida (material usado para medir a distância entre as bolas)
  • Equipamento de medição de tempo (material usado para medir o tempo de jogo de uma parcial)
  • Parcial ou set (quando os jogadores terminam de lançar todas as bolas vermelhas e azuis)
  • Partida (soma de quatro parciais ou sets, desde que não haja tie break)
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